O Bonde do Terror, de Diniz Giuseppi foi publicada na edição número 02 do Jornal Subescrito.
segunda-feira, novembro 27, 2006
Crônica nossa no Subescrito # 2
O Bonde do Terror, de Diniz Giuseppi foi publicada na edição número 02 do Jornal Subescrito.
sexta-feira, outubro 06, 2006
O que é crônica?

Ctrl+C e Ctrl+V
A crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser vinculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas de um jornal.
...
O próprio Fernando Sabino(foto) tem uma das melhores delimitações de crônica, dizendo que ela "busca o pitoresco ou o irrisório no cotidiano de cada um".
Fonte
quinta-feira, outubro 05, 2006
O bonde do terror
Por Diniz Giuseppi
Pode até parecer funk o que agora vou contar. Acontece todo dia com quem precisa trabalhar. Corre-corre, empurra-empurra. O primeiro vai ganhar!!!
Vou soltar o pancadão! Seis horas da manhã. O sol acaba de levantar e junto com ele, Maria, José, Francisco e eu. Todos se apressam. A aflição é contínua, pois quem perder um minuto pode ter que sofrer horas no corredor da morte. O relógio não pára e cada batimento cardíaco, você pode ser um perdedor. Toda essa aflição acontece diariamente. O que todos têm em comum comigo? A busca pelo “Bonde do Terror”.
Seis e meia. É grande o aglomerado de pessoas atentas aos movimentos à frente. Suor, sono, frio, medo e um olhar cauteloso. Ele pode surgir a qualquer momento. São tantos, mas o meu é aquele mais visado. Vinte minutos depois, o número de pessoas parece ter dobrado. Alguém grita: Já vem! A revolta levanta-se em armas e precipitadamente se preparam para a grande batalha.
O Bonde vem aí! O pior de tudo é que dentro do bonde tem menos funkeiros do que fora. Ele pára e começa a confusão. É trenzinho, fila dupla, uns sozinhos outros acompanhados. Aqui MC e Popozuda disputam o mesmo espaço. Quem rebolar pode perder o lugar. Ninguém se arrisca. A catraca gira e mais quinze precisam passar. Pisão, cotovelada, apertões, cheiros desagradáveis. Quem mandou gostar do bonde?
Gostar nem todos gostam. A necessidade é tanta, que eu mesmo com medo, passo cerol na mão e me espremo para entrar ao som de uma melodia infernal: Quero passar, quero passar. Seu João chega pra lá. A respiração agora é mínima, mal tenho onde me segurar para não perder o equilíbrio. O bonde começa a se movimentar e na entrada dele, alguns se penduram, pois perdê-lo seria uma tragédia. Apesar do risco!
São sete horas. Eu em meio a tantas pessoas, sou apenas um corpo que parece ocupar um lugar com mais alguém. A lei da física parece estar errada. O CD muda de faixa e ao longe eu avisto. Na segunda parada, tem alguém que quer subir. Olho admirado! Meu Deus o que é aquilo?! Uma tigrona, de uns noventa quilos ameaça o baile, pois ela de qualquer forma quer ficar no meio do salão.
Espaço não há, mas ela ameaça quebrar o barraco se não entrar no bonde. Os funkeiros se arrocham, se apertam e se amassam. Só não posso mudar de ritmo! Começa a grande passagem. Se Moisés abriu o Mar Vermelho, porque a nossa Tati não pode abrir caminho. A música agora, parece engraçada, mas quando ela passa por mim não resisto, após um pisão daqueles...
Eu to ficando atoladinho, atoladinho! Ela passa e ao meu lado fica com os braços levantados. Será nova coreografia? Não. Ela quer se segurar para não me machucar no pancadão. O bonde segue e eu no meu pequeno espaço sou obrigado e ficar de cara com sua axila. Agora que já são sete e meia, eu acho que consigo fazer um estudo sobre a região debaixo do braço da trigona.
Ela deve usar um desodorante de marca desconhecida, porque ele começa a escorrer pelas costelas da senhorita. É melhor eu deixar os detalhes sórdidos. O bonde agora deve ter uma centena de bailarinos, patricinhas, DJ’s, Mc’s, popozudas e cachorras. A parada está quente! Mas tem gente para descer. A cada novo ponto, o sofrimento vem e o que me consola é que faço parte de mais de dois milhões de pessoas que todo mês passa por isto. Danço, mas danço acompanhado!
Chega a minha vez de descer. Lá vou eu, lá vou eu na maior felicidade! Agora não é hora de cantar. Com licença, com licença, por favor! Acho que mesmo se me escutam, nada podem fazer. Por estas horas, a Tati que quase quebrou o barraco já está sentada segurando os pertences dos funkeiros. Eu vou na dança da motinha e consigo chegar à saída, mas quase vou ao chão, chão, chão.
De fora vejo o baile que acabo de deixar. E tem gente ainda querendo subir. E olha que nem é festa de camisa, no máximo tem uma casadinha ou outra. Mas, todo mundo está lá firme e forte! Apesar de não viver no Rio de Janeiro, o funk é a melhor trilha para quem, como eu, precisa do bonde do terror para sobreviver.
Sair da favela e ir ao Centro. Só mesmo ao som do pancadão para chegar ao destino! Haja fôlego! Fui!!!
Pode até parecer funk o que agora vou contar. Acontece todo dia com quem precisa trabalhar. Corre-corre, empurra-empurra. O primeiro vai ganhar!!!
Vou soltar o pancadão! Seis horas da manhã. O sol acaba de levantar e junto com ele, Maria, José, Francisco e eu. Todos se apressam. A aflição é contínua, pois quem perder um minuto pode ter que sofrer horas no corredor da morte. O relógio não pára e cada batimento cardíaco, você pode ser um perdedor. Toda essa aflição acontece diariamente. O que todos têm em comum comigo? A busca pelo “Bonde do Terror”.
Seis e meia. É grande o aglomerado de pessoas atentas aos movimentos à frente. Suor, sono, frio, medo e um olhar cauteloso. Ele pode surgir a qualquer momento. São tantos, mas o meu é aquele mais visado. Vinte minutos depois, o número de pessoas parece ter dobrado. Alguém grita: Já vem! A revolta levanta-se em armas e precipitadamente se preparam para a grande batalha.
O Bonde vem aí! O pior de tudo é que dentro do bonde tem menos funkeiros do que fora. Ele pára e começa a confusão. É trenzinho, fila dupla, uns sozinhos outros acompanhados. Aqui MC e Popozuda disputam o mesmo espaço. Quem rebolar pode perder o lugar. Ninguém se arrisca. A catraca gira e mais quinze precisam passar. Pisão, cotovelada, apertões, cheiros desagradáveis. Quem mandou gostar do bonde?
Gostar nem todos gostam. A necessidade é tanta, que eu mesmo com medo, passo cerol na mão e me espremo para entrar ao som de uma melodia infernal: Quero passar, quero passar. Seu João chega pra lá. A respiração agora é mínima, mal tenho onde me segurar para não perder o equilíbrio. O bonde começa a se movimentar e na entrada dele, alguns se penduram, pois perdê-lo seria uma tragédia. Apesar do risco!
São sete horas. Eu em meio a tantas pessoas, sou apenas um corpo que parece ocupar um lugar com mais alguém. A lei da física parece estar errada. O CD muda de faixa e ao longe eu avisto. Na segunda parada, tem alguém que quer subir. Olho admirado! Meu Deus o que é aquilo?! Uma tigrona, de uns noventa quilos ameaça o baile, pois ela de qualquer forma quer ficar no meio do salão.
Espaço não há, mas ela ameaça quebrar o barraco se não entrar no bonde. Os funkeiros se arrocham, se apertam e se amassam. Só não posso mudar de ritmo! Começa a grande passagem. Se Moisés abriu o Mar Vermelho, porque a nossa Tati não pode abrir caminho. A música agora, parece engraçada, mas quando ela passa por mim não resisto, após um pisão daqueles...
Eu to ficando atoladinho, atoladinho! Ela passa e ao meu lado fica com os braços levantados. Será nova coreografia? Não. Ela quer se segurar para não me machucar no pancadão. O bonde segue e eu no meu pequeno espaço sou obrigado e ficar de cara com sua axila. Agora que já são sete e meia, eu acho que consigo fazer um estudo sobre a região debaixo do braço da trigona.
Ela deve usar um desodorante de marca desconhecida, porque ele começa a escorrer pelas costelas da senhorita. É melhor eu deixar os detalhes sórdidos. O bonde agora deve ter uma centena de bailarinos, patricinhas, DJ’s, Mc’s, popozudas e cachorras. A parada está quente! Mas tem gente para descer. A cada novo ponto, o sofrimento vem e o que me consola é que faço parte de mais de dois milhões de pessoas que todo mês passa por isto. Danço, mas danço acompanhado!
Chega a minha vez de descer. Lá vou eu, lá vou eu na maior felicidade! Agora não é hora de cantar. Com licença, com licença, por favor! Acho que mesmo se me escutam, nada podem fazer. Por estas horas, a Tati que quase quebrou o barraco já está sentada segurando os pertences dos funkeiros. Eu vou na dança da motinha e consigo chegar à saída, mas quase vou ao chão, chão, chão.
De fora vejo o baile que acabo de deixar. E tem gente ainda querendo subir. E olha que nem é festa de camisa, no máximo tem uma casadinha ou outra. Mas, todo mundo está lá firme e forte! Apesar de não viver no Rio de Janeiro, o funk é a melhor trilha para quem, como eu, precisa do bonde do terror para sobreviver.
Sair da favela e ir ao Centro. Só mesmo ao som do pancadão para chegar ao destino! Haja fôlego! Fui!!!
Seções:
22 de agosto de 2006,
Diniz Giuseppi,
Intimista
A ida dos que não foram
Por Diniz Giuseppi
Trompetes e clarinetes anunciam um novo desfile. Movimentos bruscos e um olhar firme despontam numa rua da cidade. Eu olho admirado! Nossa, nunca vi algo tão bem organizado e com um marchar preciso. Fardamentos e boinas remetem a um tempo militar que antes vivíamos. Eu, ali, sentado no sofá, participo do desfile do 7 de setembro. Assim como milhares de brasileiros, faço a minha ida de sempre, sem nunca ter ido lá.
O Tv me transmite todos os detalhes. No sol escaldante, eu me refresco sob a sombra do meu telhado. Enquanto alguns desmaiam, eu sorrateiramente sorrio, me sentindo o saudoso imperador do Brasil. Sou o todo-poderoso daquele momento. Tudo isto sabe porque? Simplesmente, pois nos festejos do dia da pátria, nada temos o que comemorar. Se eles se exibem, eu me exibo em casa para suprir a minha baixa auto-estima.
Um desfile manjado e em nada inovador. Eu, que nunca fui, sei de cor e salteado o enredo do desfile militar. Os governantes em carros abertos são ovacionados pelos espectadores, na maioria crianças. Será que eu não tive infância? Se todos meus colegas foram, porque fui o único rejeitado da parada? Talvez meus pais tenham sofrido tanto durante a Ditadura, que queriam me ver longe de armas e do fogo.
A televisão me mostra uma “multidão” e quem estava lá sabe que não era bem assim. O desfile promove um encontro entre o velho e o novo. Mas, centenas de milhares se encontram todos os anos, durante um bem visto telejornal, para juntos comemoramos o 7 de setembro, dos que nunca foram ao desfile e não perdem nada em ver o resumo pela telinha.
Quando era estudante, minha escola levava a fanfarra e muitos dos músicos amigos repudiavam perder a praia para terem que ir “furufunfun” durante o trajeto. Será que sou um privilegiado? Se quem foi não gostou, porque estou pensativo, por nunca ter ido? Me baseio no número cada vez menor de patriotas que vãos às ruas, de verde e amarelo, cantar o hino da Independência.
Nunca fui, nem quero ir. Da Tv vejo tudo e se ficar monótono mudo de canal e vejo uma novela mexicana que ninguém é de ferro. Ou se faltar tequila, ponho num filme de ação. Ali sim os soldados matam e morrem pelo país. Enquanto no desfile vemos como muitos já estão fora de forma. Se o Brasil precisasse novamente pedir independência de Portugal, estaríamos fritos.
No 7 de setembro, só tenho uma coisa a comemorar. Feriado nacional. O dia todo em casa e um controle remoto na mão. Com ele, se o desfile está sem graça, mudo a sintonia e viajo para milhares de lugares no mundo. Faço a minha ida sem nunca ter estado lá. Que sina patriarcal que o Brasil me concedeu. Oh pátria amada!
Trompetes e clarinetes anunciam um novo desfile. Movimentos bruscos e um olhar firme despontam numa rua da cidade. Eu olho admirado! Nossa, nunca vi algo tão bem organizado e com um marchar preciso. Fardamentos e boinas remetem a um tempo militar que antes vivíamos. Eu, ali, sentado no sofá, participo do desfile do 7 de setembro. Assim como milhares de brasileiros, faço a minha ida de sempre, sem nunca ter ido lá.
O Tv me transmite todos os detalhes. No sol escaldante, eu me refresco sob a sombra do meu telhado. Enquanto alguns desmaiam, eu sorrateiramente sorrio, me sentindo o saudoso imperador do Brasil. Sou o todo-poderoso daquele momento. Tudo isto sabe porque? Simplesmente, pois nos festejos do dia da pátria, nada temos o que comemorar. Se eles se exibem, eu me exibo em casa para suprir a minha baixa auto-estima.
Um desfile manjado e em nada inovador. Eu, que nunca fui, sei de cor e salteado o enredo do desfile militar. Os governantes em carros abertos são ovacionados pelos espectadores, na maioria crianças. Será que eu não tive infância? Se todos meus colegas foram, porque fui o único rejeitado da parada? Talvez meus pais tenham sofrido tanto durante a Ditadura, que queriam me ver longe de armas e do fogo.
A televisão me mostra uma “multidão” e quem estava lá sabe que não era bem assim. O desfile promove um encontro entre o velho e o novo. Mas, centenas de milhares se encontram todos os anos, durante um bem visto telejornal, para juntos comemoramos o 7 de setembro, dos que nunca foram ao desfile e não perdem nada em ver o resumo pela telinha.
Quando era estudante, minha escola levava a fanfarra e muitos dos músicos amigos repudiavam perder a praia para terem que ir “furufunfun” durante o trajeto. Será que sou um privilegiado? Se quem foi não gostou, porque estou pensativo, por nunca ter ido? Me baseio no número cada vez menor de patriotas que vãos às ruas, de verde e amarelo, cantar o hino da Independência.
Nunca fui, nem quero ir. Da Tv vejo tudo e se ficar monótono mudo de canal e vejo uma novela mexicana que ninguém é de ferro. Ou se faltar tequila, ponho num filme de ação. Ali sim os soldados matam e morrem pelo país. Enquanto no desfile vemos como muitos já estão fora de forma. Se o Brasil precisasse novamente pedir independência de Portugal, estaríamos fritos.
No 7 de setembro, só tenho uma coisa a comemorar. Feriado nacional. O dia todo em casa e um controle remoto na mão. Com ele, se o desfile está sem graça, mudo a sintonia e viajo para milhares de lugares no mundo. Faço a minha ida sem nunca ter estado lá. Que sina patriarcal que o Brasil me concedeu. Oh pátria amada!
Asas cortadas
Por Mara Araújo
Ciúmes da mulher e proteção à filha dos perigos do lugar, estes foram os motivos encontrados pelo servente Fernando Santos para deixar a esposa doente, Maria de Lurdes, e uma criança com quatro anos presas num cubículo à corrente e cadeado na porta.
Soube que a menina aos nove anos, não consegue diferenciar uma flor de uma torneira. Talvez nem saiba sequer pronunciar estas duas simples palavras direito, porque cinco anos de sua infância foram roubados? Alguém pode imaginar o que significa uma trajetória de vida interrompida por cinco anos?
Ela não passou pela escolinha, não brigou com as coleginhas, não aprendeu a amarrar o cadarço dos sapatos, não mostrou para a mamãe a marca das mãos pequeninas pintada de tinta-guache vermelha no papel branco, tampouco desenhou a sua família, nem riscou a parede da sala recém pintada com giz de cera. Quem sabe até, nunca viu um lápis.
Talvez, se agora essa criança tivesse que fazer um desenho sobre o que deseja da vida, provavelmente rabiscaria uma casa pequena com um céu enorme, mas tão grande que tomaria toda a folha de papel oficio, porque ela não via o sol, e esta foi a sua primeira visão após todo esse tempo trancada, a luz do sol.
Quem sabe se, pelos buracos do telhado, dava para ver as nuvens ou passava algum feixe de luz, assim como nos dias de chuva as goteiras, naquele quartinho, talvez causasse àquela menina a sensação de brincar na terra molhada. Ou quando os pingos d água, ao caírem sobre o rosto dela, a fizessem pensar como seria pular, correr nessa coisa molhada. E qual a criança que não adoraria brincar na chuva?
Mergulhar no universo de quem há cinco não sabe que C+A+S+A = a casa, é no mínimo angustiante, e me faz refletir como será o olhar de uma pessoa que chegou aos nove anos sem nunca sair para brincar na rua. Nem fez uma coisa tão boba como a de comer pipoca no banco da praça ou se lambuzar toda com um sorvete de chocolate.
Aos nove anos, qualquer outra menina já deveria estar terminando a quarta série do ensino fundamental, mas a filha de seu Fernando não é uma pré-adolescente é uma criança grande, e agora, livre do cárcere, deve estar presa numa confusão de pensamentos infantis para as descobertas da adolescência. Ela está livre como uma órfã de pais vivos, e mais parece um filhote que saiu da casca do ovo e esta lá no ninho, sozinho.
Ciúmes da mulher e proteção à filha dos perigos do lugar, estes foram os motivos encontrados pelo servente Fernando Santos para deixar a esposa doente, Maria de Lurdes, e uma criança com quatro anos presas num cubículo à corrente e cadeado na porta.
Soube que a menina aos nove anos, não consegue diferenciar uma flor de uma torneira. Talvez nem saiba sequer pronunciar estas duas simples palavras direito, porque cinco anos de sua infância foram roubados? Alguém pode imaginar o que significa uma trajetória de vida interrompida por cinco anos?
Ela não passou pela escolinha, não brigou com as coleginhas, não aprendeu a amarrar o cadarço dos sapatos, não mostrou para a mamãe a marca das mãos pequeninas pintada de tinta-guache vermelha no papel branco, tampouco desenhou a sua família, nem riscou a parede da sala recém pintada com giz de cera. Quem sabe até, nunca viu um lápis.
Talvez, se agora essa criança tivesse que fazer um desenho sobre o que deseja da vida, provavelmente rabiscaria uma casa pequena com um céu enorme, mas tão grande que tomaria toda a folha de papel oficio, porque ela não via o sol, e esta foi a sua primeira visão após todo esse tempo trancada, a luz do sol.
Quem sabe se, pelos buracos do telhado, dava para ver as nuvens ou passava algum feixe de luz, assim como nos dias de chuva as goteiras, naquele quartinho, talvez causasse àquela menina a sensação de brincar na terra molhada. Ou quando os pingos d água, ao caírem sobre o rosto dela, a fizessem pensar como seria pular, correr nessa coisa molhada. E qual a criança que não adoraria brincar na chuva?
Mergulhar no universo de quem há cinco não sabe que C+A+S+A = a casa, é no mínimo angustiante, e me faz refletir como será o olhar de uma pessoa que chegou aos nove anos sem nunca sair para brincar na rua. Nem fez uma coisa tão boba como a de comer pipoca no banco da praça ou se lambuzar toda com um sorvete de chocolate.
Aos nove anos, qualquer outra menina já deveria estar terminando a quarta série do ensino fundamental, mas a filha de seu Fernando não é uma pré-adolescente é uma criança grande, e agora, livre do cárcere, deve estar presa numa confusão de pensamentos infantis para as descobertas da adolescência. Ela está livre como uma órfã de pais vivos, e mais parece um filhote que saiu da casca do ovo e esta lá no ninho, sozinho.
O passeio de fluflu
Por Diniz Giuseppi
Passos apressados. Olho para todo lado, um vazio enlouquecedor, um medo constante, um cheiro esquisito que pelas narinas entram e por fim a penetração: minha primeira vez neste lugar em busca de Fluflu. A noite começa a cair e mal consigo enxergar o que está à minha frente, falta iluminação por aqui, será que no teatro tem peça de terror?
Terror? E por falar em terror lembro da minha síndrome de pânico. Eles vão me pegar, são três, quatro, cinco. Não tem nenhum, mas eu vejo todos. Quantos ratos à minha frente, eles riem de mim e um deles até faz gesto obsceno. Talvez porque eu estivesse num território nada apropriado para mim, mas preciso passar por este passeio, afinal ele é público.
Um passeio pelo passeio em busca da estrela foi o que me fez vir até aqui. Acordei às 11 da manhã, após ter sonhado com uma vaca voando. Sonho sem nexo, mas não me espantei, afinal tudo na vida é meio sem sentido. Tem gente que faz festa para cachorro e outros que nunca tiveram sequer um bolinho com uma vela branca para assoprar. Mas isto não vem ao caso. No meu monótono levantar, do tipo vai ou não vai, eu fui e pus minhas luvas anti-sujeira: ler o jornal.
Página de polícia, adoro saber quem morreu. Me deixa feliz em saber que não fui eu. Uma matéria me chama a atenção: Aniversário de cachorro no Passeio Público. Meu cérebro com tecnologia GPRS procura, procura e encontra. Nossa! É aquilo que tem no Campo Grande? Penso que sim, mas para mim cachorro merece happy birthday, porque então esta matéria? Algum desocupado? Nada a declarar.
A vaquinha mimosa agora me passa de novo à mente. Que tal se ela estive lá para devorar o capim que não cessa de crescer? Ótima solução para a prefeitura. E o jornal poderia servir como tapete na festa da cachorrinha chamada Fluflu. Esta sim se estivesse no passeio teria mais atenção do que a vila. Velho, percebo que se dá mais importância há muitas coisas do que as outras. Que novidade!
O meu retroceder me traz o pânico. Alguém mal vestido se aproxima para pedir algo, será que é um assalto? Ele não pode ver que o meu Pen-drive com MP3, gravador de voz e rádio stereo AM e FM está no bolso da calça de linho branco. O medo aumenta, mas eu tento me controlar. Ele se aproxima, a voz rouca me arrepia a espinha dorsal. Os primeiros gestos e um sorriso largo me deseja um bom dia e convida para ver a nossa estréia do teatro.
Ai que susto. Fala-se tanto de tanto aqui no passeio. Embevecido nos meus preconceitos e medos de um lugar em que a história jaz sem jamais ser recuperada. E só em pensar que senhoritas de outrora caminhavam pelas calçadas e terras do local, hoje uma vaca se alimenta do jardim e Fluflu festeja o terceiro aniversário com direito a show pirotécnico e canhão de luz. O passeio público talvez tenha sido de gatos, mas hoje até cachorros e caninos ingleses desfilam sob o sol escaldante da Bahia.
Um abandono de um patrimônio. Um passeio que de tão público chega a incomodar. Fluflu deve chegar em breve, mas os preparativos estão sendo montados para a grande comemoração. O bom de tudo é que os simpáticos moradores terão tratamento de beleza e SPA. Tudo será restaurado por conta da festa de Fluflu, que em terra sem dono, até cachorro é rei.
Passos apressados. Olho para todo lado, um vazio enlouquecedor, um medo constante, um cheiro esquisito que pelas narinas entram e por fim a penetração: minha primeira vez neste lugar em busca de Fluflu. A noite começa a cair e mal consigo enxergar o que está à minha frente, falta iluminação por aqui, será que no teatro tem peça de terror? Terror? E por falar em terror lembro da minha síndrome de pânico. Eles vão me pegar, são três, quatro, cinco. Não tem nenhum, mas eu vejo todos. Quantos ratos à minha frente, eles riem de mim e um deles até faz gesto obsceno. Talvez porque eu estivesse num território nada apropriado para mim, mas preciso passar por este passeio, afinal ele é público.
Um passeio pelo passeio em busca da estrela foi o que me fez vir até aqui. Acordei às 11 da manhã, após ter sonhado com uma vaca voando. Sonho sem nexo, mas não me espantei, afinal tudo na vida é meio sem sentido. Tem gente que faz festa para cachorro e outros que nunca tiveram sequer um bolinho com uma vela branca para assoprar. Mas isto não vem ao caso. No meu monótono levantar, do tipo vai ou não vai, eu fui e pus minhas luvas anti-sujeira: ler o jornal.
Página de polícia, adoro saber quem morreu. Me deixa feliz em saber que não fui eu. Uma matéria me chama a atenção: Aniversário de cachorro no Passeio Público. Meu cérebro com tecnologia GPRS procura, procura e encontra. Nossa! É aquilo que tem no Campo Grande? Penso que sim, mas para mim cachorro merece happy birthday, porque então esta matéria? Algum desocupado? Nada a declarar.
A vaquinha mimosa agora me passa de novo à mente. Que tal se ela estive lá para devorar o capim que não cessa de crescer? Ótima solução para a prefeitura. E o jornal poderia servir como tapete na festa da cachorrinha chamada Fluflu. Esta sim se estivesse no passeio teria mais atenção do que a vila. Velho, percebo que se dá mais importância há muitas coisas do que as outras. Que novidade!
O meu retroceder me traz o pânico. Alguém mal vestido se aproxima para pedir algo, será que é um assalto? Ele não pode ver que o meu Pen-drive com MP3, gravador de voz e rádio stereo AM e FM está no bolso da calça de linho branco. O medo aumenta, mas eu tento me controlar. Ele se aproxima, a voz rouca me arrepia a espinha dorsal. Os primeiros gestos e um sorriso largo me deseja um bom dia e convida para ver a nossa estréia do teatro.
Ai que susto. Fala-se tanto de tanto aqui no passeio. Embevecido nos meus preconceitos e medos de um lugar em que a história jaz sem jamais ser recuperada. E só em pensar que senhoritas de outrora caminhavam pelas calçadas e terras do local, hoje uma vaca se alimenta do jardim e Fluflu festeja o terceiro aniversário com direito a show pirotécnico e canhão de luz. O passeio público talvez tenha sido de gatos, mas hoje até cachorros e caninos ingleses desfilam sob o sol escaldante da Bahia.
Um abandono de um patrimônio. Um passeio que de tão público chega a incomodar. Fluflu deve chegar em breve, mas os preparativos estão sendo montados para a grande comemoração. O bom de tudo é que os simpáticos moradores terão tratamento de beleza e SPA. Tudo será restaurado por conta da festa de Fluflu, que em terra sem dono, até cachorro é rei.
Se é público, quem cuida?

Por Débora Teixeira
A Praça Castro Alves é do povo, e o passeio quando é público, pertence mesmo a quem? Em um espaço comparável às antigas ágoras, onde os gregos se reuniam para mercar, realizar assembléias, o centro de Salvador abriga um canto privilegiado de beleza e cultura. Árvores centenárias, com certeza, bancos e calçadas que outrora serviam de pouso para artistas do Vill Velha (o teatro) aparecem em fotos e matérias denunciando o descaso do poder público. Será ele, então, o dono do passeio?
Tá, tudo bem, estamos falando da beirada do bairro Campo Grande, com vista para a Baía de Todos os Santos. Serão, então, eles os donos incautos de tão privilegiado espaço? E se forem, podem eles reformá-lo sem licitação? Pensar em hipóteses fantasiosas para explicar a condição do Passeio Público de Salvador serve para aplacar a revolta que nos envolve ao ver o entorno do Teatro Villa Velha vitimado pelo abandono e degradação. Mas, daí, volto um pouco no tempo e vou mais longe. O leitor sabe da condição do Passeio Público do Rio de Janeiro, por exemplo? Pelo que vi, quando lá estive há uns bons 3 ou 4 anos, está bem pior do que o de Salvador. Se encontra fechado por grades, correntes, cadeados e pelo pedaço da mata que faz parte do seu cenário.
Em Vitória, no Espírito Santo, que visito novamente, encontro nos parques e jardins um exemplo de parceria que o governo neoliberal adota – a parceria público-privada. Ao lado do Porto de Tubarão, o segundo maior e mais importante porto do país, está o Parque da Vale do Rio Doce. Bem conservado e politicamente correto, o parque é administrado pela Companhia Vale do Rio Doce (uma das estatais privatizadas no governo FHC), apresenta em uma das suas atrações todo o processo de extração do minério de ferro até a transformação em pelotas para exportação através de painéis e gôndolas temáticas. Em horários determinados, é possível visitar o porto e conhecer os campos onde são transformados e transportados o minério até o navio. Ali ao lado, Vila Velha (a cidade), com suas pontes velhas e novas, a mais nova e a forma mais rápida de chegar lá, devo dizer, cobra pedágio e é administrado por uma concessionária de transportes. Já do outro lado pode-se visitar o seu mais imponente ponto turístico, o Convento da Penha, um velho, mas conservado e iluminado conjunto arquitetônico mantido pela Igreja Católica. Se é mantido pela Igreja, é público ou é de Deus?
Os parques e praças de Salvador parecem sorteados ou indicados para ganhar seu “dia de noiva”, alguns ganham granito e fontes iluminadas, outros esperam por uma caridade. O Passeio está assim, impassível. Aguarda, não com tanta paciência, por um olhar diferenciado. Ensaia no seu trajeto artístico um espetáculo de transformação. Em uma extensão de benção dos santos e uma ação dos homens. Públicos ou privados.
Foto: Débora Teixeira
Lata d´água na cabeça
Por Diniz Giuseppi
São dez, são cem, são mil. Um conglomerado de pessoas correm desesperadamente por escadas. Gritos, apertos e desespero cercam quem por ali passa. Não estamos no meio do sertão semi-árido, porém, a falta d’água é a principal causa do barraco armado na Estação da Lapa num dia desses. Uma verdadeira guerra do MSB – Movimento dos Sem-Banheiro.
Eu li a notícia no jornal e fiquei pensando. Imagina se a moda pega? As pessoas saírem de casa com o seu pequeno reservatório debaixo do braço para usar em casos de necessidades especiais? Os detalhes sórdidos são muitos para eu estar aqui comentando. Se falta tudo e eles até prevêem a falta de água em 2000 e não sei quanto, não me espanto se na próxima semana abrir o jornal e vir a manchete: Comércio na Lapa – Vendedores da água faturam milhões.
Ninguém sabe porque ela faltou. Será que foi o interminável metrô? Ou greve da empresa de abastecimento? Como todo mundo decide parar as atividades por melhores salários, talvez a bola da vez sejam os limpadores de banheiro. Não limpo, não limpo e não limpo!
Imagina que não precisa fazer uma greve para os banheiros começarem a exalar odores desagradáveis. Isso a gente já sente lá mesmo na Lapa. Dias desses quando estava passando por lá, em meio a tanta correria, percebi que um determinado trecho estava vazio. Foi aí que pensei: é minha chance de deixar estas pessoas para trás e correr para pegar o ônibus. Não sei bem o que me aconteceu depois desse maléfico pensamento.
Me aproximei e no mesmo momento pedi a morte. Que fedor da... É melhor não continuar com o vocábulo. O cheiro era tão mal cheiroso que as narinas inflamaram com aquele misto ácido, azedo, velho e efervescente de urina. Se tivesse um vendedor de água eu teria comprado. Mas, acho que o melhor negócio eram máscaras de oxigênio. Pois, só com roupa e aparatos especiais se pode entrar num sanitário daqueles.
E a água estava por lá. Pense bem neste dia em que ela faltou. O MSB levantou as bandeiras e foram parar no shopping. As filas eram mais gigantescas do que as do cinema ou do Mc Donald. No atual momento que passo da escassez de verbas, teria até feito negócio. Eu poderia ser um cambista para vender lugares na fila. Alugar cadeiras para os “bexigas-apertadas” sentarem. Ou na pior das hipóteses vender pinicos a R$1,99 feito com plástico reciclável.
É engraçado, mas quem já sofreu com a bexiga cheia é que pode dizer o quanto dói. Mas, pimenta na bexiga dos outros é refresco. É melhor eu deixar as bexigas de lado e voltar para a confusão. Se o problema persistir, é melhor sair prevenido de casa. Acho que o mais normal seria a famosa lata d’água que virou até música popular. Os ônibus já são lotados, Imagina a nova: Posso segurar sua lata?
Eu que não me arriscaria dar minha lata para ninguém guardar. A lata é minha e ninguém pega! Em época de eleição dá até para ganhar uns votos com o problema da falta de água na Lapa. Vote em Senhor Bexiga. A favor dos sem banheiros e das bexigas cheias. O jingle todo mundo ia aprender a cantar. “Lata d’água na cabeça, lá vai Maria”, José, João para a fila. Se bobear, perde o lugar! Eu prefiro votar em branco.
São dez, são cem, são mil. Um conglomerado de pessoas correm desesperadamente por escadas. Gritos, apertos e desespero cercam quem por ali passa. Não estamos no meio do sertão semi-árido, porém, a falta d’água é a principal causa do barraco armado na Estação da Lapa num dia desses. Uma verdadeira guerra do MSB – Movimento dos Sem-Banheiro.
Eu li a notícia no jornal e fiquei pensando. Imagina se a moda pega? As pessoas saírem de casa com o seu pequeno reservatório debaixo do braço para usar em casos de necessidades especiais? Os detalhes sórdidos são muitos para eu estar aqui comentando. Se falta tudo e eles até prevêem a falta de água em 2000 e não sei quanto, não me espanto se na próxima semana abrir o jornal e vir a manchete: Comércio na Lapa – Vendedores da água faturam milhões.
Ninguém sabe porque ela faltou. Será que foi o interminável metrô? Ou greve da empresa de abastecimento? Como todo mundo decide parar as atividades por melhores salários, talvez a bola da vez sejam os limpadores de banheiro. Não limpo, não limpo e não limpo!
Imagina que não precisa fazer uma greve para os banheiros começarem a exalar odores desagradáveis. Isso a gente já sente lá mesmo na Lapa. Dias desses quando estava passando por lá, em meio a tanta correria, percebi que um determinado trecho estava vazio. Foi aí que pensei: é minha chance de deixar estas pessoas para trás e correr para pegar o ônibus. Não sei bem o que me aconteceu depois desse maléfico pensamento.
Me aproximei e no mesmo momento pedi a morte. Que fedor da... É melhor não continuar com o vocábulo. O cheiro era tão mal cheiroso que as narinas inflamaram com aquele misto ácido, azedo, velho e efervescente de urina. Se tivesse um vendedor de água eu teria comprado. Mas, acho que o melhor negócio eram máscaras de oxigênio. Pois, só com roupa e aparatos especiais se pode entrar num sanitário daqueles.
E a água estava por lá. Pense bem neste dia em que ela faltou. O MSB levantou as bandeiras e foram parar no shopping. As filas eram mais gigantescas do que as do cinema ou do Mc Donald. No atual momento que passo da escassez de verbas, teria até feito negócio. Eu poderia ser um cambista para vender lugares na fila. Alugar cadeiras para os “bexigas-apertadas” sentarem. Ou na pior das hipóteses vender pinicos a R$1,99 feito com plástico reciclável.
É engraçado, mas quem já sofreu com a bexiga cheia é que pode dizer o quanto dói. Mas, pimenta na bexiga dos outros é refresco. É melhor eu deixar as bexigas de lado e voltar para a confusão. Se o problema persistir, é melhor sair prevenido de casa. Acho que o mais normal seria a famosa lata d’água que virou até música popular. Os ônibus já são lotados, Imagina a nova: Posso segurar sua lata?
Eu que não me arriscaria dar minha lata para ninguém guardar. A lata é minha e ninguém pega! Em época de eleição dá até para ganhar uns votos com o problema da falta de água na Lapa. Vote em Senhor Bexiga. A favor dos sem banheiros e das bexigas cheias. O jingle todo mundo ia aprender a cantar. “Lata d’água na cabeça, lá vai Maria”, José, João para a fila. Se bobear, perde o lugar! Eu prefiro votar em branco.
terça-feira, outubro 03, 2006
Pelos pretos, pobres e favelados
Por Débora Teixeira
19/09/2006
Não tão recentemente o funk vem ganhando espaço no Brasil, replicando a conquista da axé music nos idos da década de 80, aliás, desde o hit grudento "nega do cabelo duro", de Luiz Caldas. O funk nos apresentou o bonde – grupo de jovens que freqüentam os bailes -, e nos trouxe como carro-chefe a balada "é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado". As pick-ups que ressoam o pancadão são pilotadas por Dj´s e as rimas, cantadas por MC´s (pronuncia emesis). Quanta expressão de negritude e superação das barreiras do preconceito que conduz ao tudo. Motoristas e passageiros dos bailes em transe. Jovens batucam uma música na lataria do buzú, sim, porque esta história se passa em Salvador, e ônibus é condução em qualquer outra parte do país.
Quatro jovens entram no buzú no fim de linha do Base Naval – Pituba em uma tarde ensolarada de sábado. Massa, real. Direito de ir e vir assegurado. E com meia-passagem aos sábados, direito também conquistado depois da histórica revolta do buzú, de 2002, que parou a capital baiana por dias. Cantarolam um pagode, um funk, quem sabe? Quem batuca chama para si a atenção do mundo. Quem batuca não assalta, pelo menos não naquele dia.
Mais à frente, alguém que também tem o direito de ir e vir assegurado, porta uma arma. A sociedade decidiu pelo desarmamento em polêmico plebiscito. Esse aí tem o direito de estar armado? Tem o direito de ter a impressão de que quatro pretos, pobres e pagodeiros de ônibus poderiam assaltar o ônibus? O justiceiro teve a impressão, e as balas.
O motivo, torpe. Testemunhas, em silêncio. A sociedade, impotente. Desta equação, dois jovens mortos.
Dizem que os jovens são o futuro do Brasil,
se estamos matando os nossos jovens
pela lógica:
o Brasil não tem futuro?
19/09/2006
Não tão recentemente o funk vem ganhando espaço no Brasil, replicando a conquista da axé music nos idos da década de 80, aliás, desde o hit grudento "nega do cabelo duro", de Luiz Caldas. O funk nos apresentou o bonde – grupo de jovens que freqüentam os bailes -, e nos trouxe como carro-chefe a balada "é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado". As pick-ups que ressoam o pancadão são pilotadas por Dj´s e as rimas, cantadas por MC´s (pronuncia emesis). Quanta expressão de negritude e superação das barreiras do preconceito que conduz ao tudo. Motoristas e passageiros dos bailes em transe. Jovens batucam uma música na lataria do buzú, sim, porque esta história se passa em Salvador, e ônibus é condução em qualquer outra parte do país.
Quatro jovens entram no buzú no fim de linha do Base Naval – Pituba em uma tarde ensolarada de sábado. Massa, real. Direito de ir e vir assegurado. E com meia-passagem aos sábados, direito também conquistado depois da histórica revolta do buzú, de 2002, que parou a capital baiana por dias. Cantarolam um pagode, um funk, quem sabe? Quem batuca chama para si a atenção do mundo. Quem batuca não assalta, pelo menos não naquele dia.
Mais à frente, alguém que também tem o direito de ir e vir assegurado, porta uma arma. A sociedade decidiu pelo desarmamento em polêmico plebiscito. Esse aí tem o direito de estar armado? Tem o direito de ter a impressão de que quatro pretos, pobres e pagodeiros de ônibus poderiam assaltar o ônibus? O justiceiro teve a impressão, e as balas.
O motivo, torpe. Testemunhas, em silêncio. A sociedade, impotente. Desta equação, dois jovens mortos.
Dizem que os jovens são o futuro do Brasil,
se estamos matando os nossos jovens
pela lógica:
o Brasil não tem futuro?
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