
Por Débora Teixeira
A Praça Castro Alves é do povo, e o passeio quando é público, pertence mesmo a quem? Em um espaço comparável às antigas ágoras, onde os gregos se reuniam para mercar, realizar assembléias, o centro de Salvador abriga um canto privilegiado de beleza e cultura. Árvores centenárias, com certeza, bancos e calçadas que outrora serviam de pouso para artistas do Vill Velha (o teatro) aparecem em fotos e matérias denunciando o descaso do poder público. Será ele, então, o dono do passeio?
Tá, tudo bem, estamos falando da beirada do bairro Campo Grande, com vista para a Baía de Todos os Santos. Serão, então, eles os donos incautos de tão privilegiado espaço? E se forem, podem eles reformá-lo sem licitação? Pensar em hipóteses fantasiosas para explicar a condição do Passeio Público de Salvador serve para aplacar a revolta que nos envolve ao ver o entorno do Teatro Villa Velha vitimado pelo abandono e degradação. Mas, daí, volto um pouco no tempo e vou mais longe. O leitor sabe da condição do Passeio Público do Rio de Janeiro, por exemplo? Pelo que vi, quando lá estive há uns bons 3 ou 4 anos, está bem pior do que o de Salvador. Se encontra fechado por grades, correntes, cadeados e pelo pedaço da mata que faz parte do seu cenário.
Em Vitória, no Espírito Santo, que visito novamente, encontro nos parques e jardins um exemplo de parceria que o governo neoliberal adota – a parceria público-privada. Ao lado do Porto de Tubarão, o segundo maior e mais importante porto do país, está o Parque da Vale do Rio Doce. Bem conservado e politicamente correto, o parque é administrado pela Companhia Vale do Rio Doce (uma das estatais privatizadas no governo FHC), apresenta em uma das suas atrações todo o processo de extração do minério de ferro até a transformação em pelotas para exportação através de painéis e gôndolas temáticas. Em horários determinados, é possível visitar o porto e conhecer os campos onde são transformados e transportados o minério até o navio. Ali ao lado, Vila Velha (a cidade), com suas pontes velhas e novas, a mais nova e a forma mais rápida de chegar lá, devo dizer, cobra pedágio e é administrado por uma concessionária de transportes. Já do outro lado pode-se visitar o seu mais imponente ponto turístico, o Convento da Penha, um velho, mas conservado e iluminado conjunto arquitetônico mantido pela Igreja Católica. Se é mantido pela Igreja, é público ou é de Deus?
Os parques e praças de Salvador parecem sorteados ou indicados para ganhar seu “dia de noiva”, alguns ganham granito e fontes iluminadas, outros esperam por uma caridade. O Passeio está assim, impassível. Aguarda, não com tanta paciência, por um olhar diferenciado. Ensaia no seu trajeto artístico um espetáculo de transformação. Em uma extensão de benção dos santos e uma ação dos homens. Públicos ou privados.
Foto: Débora Teixeira
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