Por Diniz Giuseppi
Pode até parecer funk o que agora vou contar. Acontece todo dia com quem precisa trabalhar. Corre-corre, empurra-empurra. O primeiro vai ganhar!!!
Vou soltar o pancadão! Seis horas da manhã. O sol acaba de levantar e junto com ele, Maria, José, Francisco e eu. Todos se apressam. A aflição é contínua, pois quem perder um minuto pode ter que sofrer horas no corredor da morte. O relógio não pára e cada batimento cardíaco, você pode ser um perdedor. Toda essa aflição acontece diariamente. O que todos têm em comum comigo? A busca pelo “Bonde do Terror”.
Seis e meia. É grande o aglomerado de pessoas atentas aos movimentos à frente. Suor, sono, frio, medo e um olhar cauteloso. Ele pode surgir a qualquer momento. São tantos, mas o meu é aquele mais visado. Vinte minutos depois, o número de pessoas parece ter dobrado. Alguém grita: Já vem! A revolta levanta-se em armas e precipitadamente se preparam para a grande batalha.
O Bonde vem aí! O pior de tudo é que dentro do bonde tem menos funkeiros do que fora. Ele pára e começa a confusão. É trenzinho, fila dupla, uns sozinhos outros acompanhados. Aqui MC e Popozuda disputam o mesmo espaço. Quem rebolar pode perder o lugar. Ninguém se arrisca. A catraca gira e mais quinze precisam passar. Pisão, cotovelada, apertões, cheiros desagradáveis. Quem mandou gostar do bonde?
Gostar nem todos gostam. A necessidade é tanta, que eu mesmo com medo, passo cerol na mão e me espremo para entrar ao som de uma melodia infernal: Quero passar, quero passar. Seu João chega pra lá. A respiração agora é mínima, mal tenho onde me segurar para não perder o equilíbrio. O bonde começa a se movimentar e na entrada dele, alguns se penduram, pois perdê-lo seria uma tragédia. Apesar do risco!
São sete horas. Eu em meio a tantas pessoas, sou apenas um corpo que parece ocupar um lugar com mais alguém. A lei da física parece estar errada. O CD muda de faixa e ao longe eu avisto. Na segunda parada, tem alguém que quer subir. Olho admirado! Meu Deus o que é aquilo?! Uma tigrona, de uns noventa quilos ameaça o baile, pois ela de qualquer forma quer ficar no meio do salão.
Espaço não há, mas ela ameaça quebrar o barraco se não entrar no bonde. Os funkeiros se arrocham, se apertam e se amassam. Só não posso mudar de ritmo! Começa a grande passagem. Se Moisés abriu o Mar Vermelho, porque a nossa Tati não pode abrir caminho. A música agora, parece engraçada, mas quando ela passa por mim não resisto, após um pisão daqueles...
Eu to ficando atoladinho, atoladinho! Ela passa e ao meu lado fica com os braços levantados. Será nova coreografia? Não. Ela quer se segurar para não me machucar no pancadão. O bonde segue e eu no meu pequeno espaço sou obrigado e ficar de cara com sua axila. Agora que já são sete e meia, eu acho que consigo fazer um estudo sobre a região debaixo do braço da trigona.
Ela deve usar um desodorante de marca desconhecida, porque ele começa a escorrer pelas costelas da senhorita. É melhor eu deixar os detalhes sórdidos. O bonde agora deve ter uma centena de bailarinos, patricinhas, DJ’s, Mc’s, popozudas e cachorras. A parada está quente! Mas tem gente para descer. A cada novo ponto, o sofrimento vem e o que me consola é que faço parte de mais de dois milhões de pessoas que todo mês passa por isto. Danço, mas danço acompanhado!
Chega a minha vez de descer. Lá vou eu, lá vou eu na maior felicidade! Agora não é hora de cantar. Com licença, com licença, por favor! Acho que mesmo se me escutam, nada podem fazer. Por estas horas, a Tati que quase quebrou o barraco já está sentada segurando os pertences dos funkeiros. Eu vou na dança da motinha e consigo chegar à saída, mas quase vou ao chão, chão, chão.
De fora vejo o baile que acabo de deixar. E tem gente ainda querendo subir. E olha que nem é festa de camisa, no máximo tem uma casadinha ou outra. Mas, todo mundo está lá firme e forte! Apesar de não viver no Rio de Janeiro, o funk é a melhor trilha para quem, como eu, precisa do bonde do terror para sobreviver.
Sair da favela e ir ao Centro. Só mesmo ao som do pancadão para chegar ao destino! Haja fôlego! Fui!!!
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