quinta-feira, outubro 05, 2006

O passeio de fluflu

Por Diniz Giuseppi

Passos apressados. Olho para todo lado, um vazio enlouquecedor, um medo constante, um cheiro esquisito que pelas narinas entram e por fim a penetração: minha primeira vez neste lugar em busca de Fluflu. A noite começa a cair e mal consigo enxergar o que está à minha frente, falta iluminação por aqui, será que no teatro tem peça de terror?

Terror? E por falar em terror lembro da minha síndrome de pânico. Eles vão me pegar, são três, quatro, cinco. Não tem nenhum, mas eu vejo todos. Quantos ratos à minha frente, eles riem de mim e um deles até faz gesto obsceno. Talvez porque eu estivesse num território nada apropriado para mim, mas preciso passar por este passeio, afinal ele é público.

Um passeio pelo passeio em busca da estrela foi o que me fez vir até aqui. Acordei às 11 da manhã, após ter sonhado com uma vaca voando. Sonho sem nexo, mas não me espantei, afinal tudo na vida é meio sem sentido. Tem gente que faz festa para cachorro e outros que nunca tiveram sequer um bolinho com uma vela branca para assoprar. Mas isto não vem ao caso. No meu monótono levantar, do tipo vai ou não vai, eu fui e pus minhas luvas anti-sujeira: ler o jornal.

Página de polícia, adoro saber quem morreu. Me deixa feliz em saber que não fui eu. Uma matéria me chama a atenção: Aniversário de cachorro no Passeio Público. Meu cérebro com tecnologia GPRS procura, procura e encontra. Nossa! É aquilo que tem no Campo Grande? Penso que sim, mas para mim cachorro merece happy birthday, porque então esta matéria? Algum desocupado? Nada a declarar.

A vaquinha mimosa agora me passa de novo à mente. Que tal se ela estive lá para devorar o capim que não cessa de crescer? Ótima solução para a prefeitura. E o jornal poderia servir como tapete na festa da cachorrinha chamada Fluflu. Esta sim se estivesse no passeio teria mais atenção do que a vila. Velho, percebo que se dá mais importância há muitas coisas do que as outras. Que novidade!

O meu retroceder me traz o pânico. Alguém mal vestido se aproxima para pedir algo, será que é um assalto? Ele não pode ver que o meu Pen-drive com MP3, gravador de voz e rádio stereo AM e FM está no bolso da calça de linho branco. O medo aumenta, mas eu tento me controlar. Ele se aproxima, a voz rouca me arrepia a espinha dorsal. Os primeiros gestos e um sorriso largo me deseja um bom dia e convida para ver a nossa estréia do teatro.

Ai que susto. Fala-se tanto de tanto aqui no passeio. Embevecido nos meus preconceitos e medos de um lugar em que a história jaz sem jamais ser recuperada. E só em pensar que senhoritas de outrora caminhavam pelas calçadas e terras do local, hoje uma vaca se alimenta do jardim e Fluflu festeja o terceiro aniversário com direito a show pirotécnico e canhão de luz. O passeio público talvez tenha sido de gatos, mas hoje até cachorros e caninos ingleses desfilam sob o sol escaldante da Bahia.

Um abandono de um patrimônio. Um passeio que de tão público chega a incomodar. Fluflu deve chegar em breve, mas os preparativos estão sendo montados para a grande comemoração. O bom de tudo é que os simpáticos moradores terão tratamento de beleza e SPA. Tudo será restaurado por conta da festa de Fluflu, que em terra sem dono, até cachorro é rei.

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