Por Débora Teixeira
19/09/2006
Não tão recentemente o funk vem ganhando espaço no Brasil, replicando a conquista da axé music nos idos da década de 80, aliás, desde o hit grudento "nega do cabelo duro", de Luiz Caldas. O funk nos apresentou o bonde – grupo de jovens que freqüentam os bailes -, e nos trouxe como carro-chefe a balada "é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado". As pick-ups que ressoam o pancadão são pilotadas por Dj´s e as rimas, cantadas por MC´s (pronuncia emesis). Quanta expressão de negritude e superação das barreiras do preconceito que conduz ao tudo. Motoristas e passageiros dos bailes em transe. Jovens batucam uma música na lataria do buzú, sim, porque esta história se passa em Salvador, e ônibus é condução em qualquer outra parte do país.
Quatro jovens entram no buzú no fim de linha do Base Naval – Pituba em uma tarde ensolarada de sábado. Massa, real. Direito de ir e vir assegurado. E com meia-passagem aos sábados, direito também conquistado depois da histórica revolta do buzú, de 2002, que parou a capital baiana por dias. Cantarolam um pagode, um funk, quem sabe? Quem batuca chama para si a atenção do mundo. Quem batuca não assalta, pelo menos não naquele dia.
Mais à frente, alguém que também tem o direito de ir e vir assegurado, porta uma arma. A sociedade decidiu pelo desarmamento em polêmico plebiscito. Esse aí tem o direito de estar armado? Tem o direito de ter a impressão de que quatro pretos, pobres e pagodeiros de ônibus poderiam assaltar o ônibus? O justiceiro teve a impressão, e as balas.
O motivo, torpe. Testemunhas, em silêncio. A sociedade, impotente. Desta equação, dois jovens mortos.
Dizem que os jovens são o futuro do Brasil,
se estamos matando os nossos jovens
pela lógica:
o Brasil não tem futuro?
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