Por Diniz Giuseppi
Trompetes e clarinetes anunciam um novo desfile. Movimentos bruscos e um olhar firme despontam numa rua da cidade. Eu olho admirado! Nossa, nunca vi algo tão bem organizado e com um marchar preciso. Fardamentos e boinas remetem a um tempo militar que antes vivíamos. Eu, ali, sentado no sofá, participo do desfile do 7 de setembro. Assim como milhares de brasileiros, faço a minha ida de sempre, sem nunca ter ido lá.
O Tv me transmite todos os detalhes. No sol escaldante, eu me refresco sob a sombra do meu telhado. Enquanto alguns desmaiam, eu sorrateiramente sorrio, me sentindo o saudoso imperador do Brasil. Sou o todo-poderoso daquele momento. Tudo isto sabe porque? Simplesmente, pois nos festejos do dia da pátria, nada temos o que comemorar. Se eles se exibem, eu me exibo em casa para suprir a minha baixa auto-estima.
Um desfile manjado e em nada inovador. Eu, que nunca fui, sei de cor e salteado o enredo do desfile militar. Os governantes em carros abertos são ovacionados pelos espectadores, na maioria crianças. Será que eu não tive infância? Se todos meus colegas foram, porque fui o único rejeitado da parada? Talvez meus pais tenham sofrido tanto durante a Ditadura, que queriam me ver longe de armas e do fogo.
A televisão me mostra uma “multidão” e quem estava lá sabe que não era bem assim. O desfile promove um encontro entre o velho e o novo. Mas, centenas de milhares se encontram todos os anos, durante um bem visto telejornal, para juntos comemoramos o 7 de setembro, dos que nunca foram ao desfile e não perdem nada em ver o resumo pela telinha.
Quando era estudante, minha escola levava a fanfarra e muitos dos músicos amigos repudiavam perder a praia para terem que ir “furufunfun” durante o trajeto. Será que sou um privilegiado? Se quem foi não gostou, porque estou pensativo, por nunca ter ido? Me baseio no número cada vez menor de patriotas que vãos às ruas, de verde e amarelo, cantar o hino da Independência.
Nunca fui, nem quero ir. Da Tv vejo tudo e se ficar monótono mudo de canal e vejo uma novela mexicana que ninguém é de ferro. Ou se faltar tequila, ponho num filme de ação. Ali sim os soldados matam e morrem pelo país. Enquanto no desfile vemos como muitos já estão fora de forma. Se o Brasil precisasse novamente pedir independência de Portugal, estaríamos fritos.
No 7 de setembro, só tenho uma coisa a comemorar. Feriado nacional. O dia todo em casa e um controle remoto na mão. Com ele, se o desfile está sem graça, mudo a sintonia e viajo para milhares de lugares no mundo. Faço a minha ida sem nunca ter estado lá. Que sina patriarcal que o Brasil me concedeu. Oh pátria amada!
quinta-feira, outubro 05, 2006
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário