quinta-feira, outubro 05, 2006

Asas cortadas

Por Mara Araújo

Ciúmes da mulher e proteção à filha dos perigos do lugar, estes foram os motivos encontrados pelo servente Fernando Santos para deixar a esposa doente, Maria de Lurdes, e uma criança com quatro anos presas num cubículo à corrente e cadeado na porta.

Soube que a menina aos nove anos, não consegue diferenciar uma flor de uma torneira. Talvez nem saiba sequer pronunciar estas duas simples palavras direito, porque cinco anos de sua infância foram roubados? Alguém pode imaginar o que significa uma trajetória de vida interrompida por cinco anos?

Ela não passou pela escolinha, não brigou com as coleginhas, não aprendeu a amarrar o cadarço dos sapatos, não mostrou para a mamãe a marca das mãos pequeninas pintada de tinta-guache vermelha no papel branco, tampouco desenhou a sua família, nem riscou a parede da sala recém pintada com giz de cera. Quem sabe até, nunca viu um lápis.

Talvez, se agora essa criança tivesse que fazer um desenho sobre o que deseja da vida, provavelmente rabiscaria uma casa pequena com um céu enorme, mas tão grande que tomaria toda a folha de papel oficio, porque ela não via o sol, e esta foi a sua primeira visão após todo esse tempo trancada, a luz do sol.

Quem sabe se, pelos buracos do telhado, dava para ver as nuvens ou passava algum feixe de luz, assim como nos dias de chuva as goteiras, naquele quartinho, talvez causasse àquela menina a sensação de brincar na terra molhada. Ou quando os pingos d água, ao caírem sobre o rosto dela, a fizessem pensar como seria pular, correr nessa coisa molhada. E qual a criança que não adoraria brincar na chuva?

Mergulhar no universo de quem há cinco não sabe que C+A+S+A = a casa, é no mínimo angustiante, e me faz refletir como será o olhar de uma pessoa que chegou aos nove anos sem nunca sair para brincar na rua. Nem fez uma coisa tão boba como a de comer pipoca no banco da praça ou se lambuzar toda com um sorvete de chocolate.

Aos nove anos, qualquer outra menina já deveria estar terminando a quarta série do ensino fundamental, mas a filha de seu Fernando não é uma pré-adolescente é uma criança grande, e agora, livre do cárcere, deve estar presa numa confusão de pensamentos infantis para as descobertas da adolescência. Ela está livre como uma órfã de pais vivos, e mais parece um filhote que saiu da casca do ovo e esta lá no ninho, sozinho.

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