terça-feira, outubro 03, 2006

Tem mensagem pra você

Por Leandro Pessoa

Ontem recebi uma carta, destas antigas, manuscritas e, mais uma vez, a alegria de receber cartas me leva a escrever sobre elas. Não as vejo com o saudosismo costumeiro: as cartas têm grande valor não porque compõem um passado intocável e retratam uma ingenuidade perdida, mas porque através delas as mensagens ultrapassam a mera informação; ganham novas dimensões; são diversas, íntimas, confessionais.

Há sempre uma vantagem em nascer em períodos de transição, de crise. Pude assim conhecer tanto o declínio do envio de cartas, como a ascensão das mensagens virtuais. Ainda assim, em qualquer discurso de última hora, seria enquadrado no rol da geração-moderna-instantânea-ansiosa do século XXI ou então no grupo dos já citados saudosistas (grupo seleto que celebra hábitos antigos apenas por serem antigos).Acontece que a comunicação por cartas pra mim é uma opção - chego a colecionar correspondentes – que gerações posteriores não terão e todo o meu esforço para preservar a comunicação por cartas é simplesmente enviá-las.

Nas cartas há harmoniosas e simultâneas formas de comunicação, aquelas que sustentam a minha opção: o papel como plataforma da mensagem revela uma preocupação com o que será dito, expulsa a possibilidade de “escrever por escrever” e leva à escolha de envelopes, selos e folhas diversas; a caligrafia é um elemento que torna a carta única, não há o uso de uma fonte padrão, mas sim da maneira singela de cada sujeito escrever; o arquivamento das cartas não é distanciado como o dos arquivos digitais, elas se tornam sempre parte das memórias que se tem do remetente e ainda trazem fotos e adesivos, elementos palpáveis.

Ando estudando o meu mapa de correspondentes habituais e sou muito grato a cada um deles, pois, mesmo sendo poucos, conseguem juntos, através de cartas, me completarem mais do que quaisquer números de scraps dos “friends” de um perfil do Orkut. A minha grande preocupação não é só fugir do saudosismo dos velhos correspondentes, mas também não parecer um sujeito resistente ou criterioso para estabelecer novos contatos. Por isso, leitor, lhe indico ser o morador da Rua Perdidos em Ascensão, nº 77, no Bairro da Cidadela, quanto ao CEP, você pode encontrá-lo na página virtual dos Correios.

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